Curto circuito
11/11/13 09:00Internauta: Namoro um rapaz que sofreu um acidente de moto e quase morreu. Ele agora está em desespero e depressão. É normal acontecer isso? Por favor, se puder me explicar, eu agradeço. Não sei como agir, se desapareço, se tento dar mensagens positivas? Tô triste demais, desanimada e sem conseguir comer e dormir!
Luciana: há inúmeras formas de reagir a situações como a que você relata. Algumas pessoas tendem a ficar eufóricas, chegam a se sentir verdadeiros super-homens diante do perigo de morte – negam o terror que os acidentes ensejam. Outras são tomadas por ataques de pânico e depressão. Também há os que se apavoram e mudam de vida, de religião e etc. Alguns fazem promessas e pactos e há quem desenvolva doenças psíquicas ou psicossomáticas. Difícil sair ileso de uma experiência que mobiliza enormes quantidades de angústia e ansiedade, e que rompe com qualquer ideia de continuidade da vida. No centro dessa ruptura está o contato com algo difícil de ser entendido. A quase morte nos coloca numa situação muito estranha, faltam sentidos, palavras, imagens. É quando ocorre algo que remete o sujeito ao desamparo inicial da vida. Chamamos de trauma essa ruptura difícil de significar. É indicado que seu namorado procure um analista.
Quanto a você: parece que está identificada com ele. Como se o acidente fosse seu também. Isso indica um funcionamento tipo esponja, onde você absorve todos os sofrimentos a sua volta. O que me permite dizer que há uma tendência sua a realizar ligações fusionais. Cuidado. Ligações dessa espécie causam muito sofrimento e enormes confusões entre sujeito e objeto. Portanto, creio que você deva procurar um analista também.
Nova concepção da morte
Como ia morrer, foi-lhe dado o aviso
na carne, como sempre ocorre aos seres vivos;
um aviso, um sinal que não lhe veio de fora,
mas do fundo do corpo, onde a morte mora,
ou dizendo melhor, onde ela circula
como a eletricidade ou o medo, na medula
dos ossos e em cada enzima, que veicula,
no processo da vida, esse contrário: a morte.
Ferreira Gullar, versos iniciais, in Muitas Vozes.
Dica: Gente como a gente, primeiro filme de Robert Redford como diretor. A história é trágica, a morte por acidente de jovem promissor leva seu irmão a amargas consequências psicológicas – maternidade, paternidade e fraternidade serão questionadas.